Depois de um ano andando pela tropical e ensolarada cidade do Salvador, peregrinando frita e feliz sobre o mármore do inferno, eu decidi que já era hora de voltar a ter UM CARRO.

Pois é.
E a resolução mais adiada da década mereceu uma inauguração ilustre: levar meu amigo ao aeroporto. Eu era a imagem da empolgação purpurinada testando freios e ligando sinaleiras e aumentando o som, enquanto o também empolgado Chaplin me falava sobre a importância daquela viagem que ele iria fazer e de tudo que ele iria concretizar graças a isto nos próximos anos enquanto a vida seguia um fluxo natural rumo ao topo do mundo repleto de dias maravilhosos que iriam se descortinar depois daquele embarque e então…
O carro parou.
O. CARRO. PAROU.
Desligou. Meia-noite. No meio da Paralela.
Abrimos o capô com expressões preocupadas e mãos no queixo que, por si só, não ligam nada à coisa nenhuma. Depois, tentamos empurrá-lo até um posto. O carro precisava morrer logo no primeiro dia, gente? No caminho, ele falava sobre a força do inevitável and nothing really matters to me e, eu, sobre essa sensação de desajuste do ano anterior. Vale acrescentar que, na manhã seguinte, eu descobri que se tratava de um problema mecânico insignificante, mas, naquele momento, era impossível não concluir que a minha vida seria num eterno “queria sorvete, mas era feijão”.

Queria Travolta, era Latino. Queria um carro, era um aquecedor elétrico. E ele garantindo que não era assim, nunca seria, que tudo era muito mais complexo. Fomos elaborando a existência como algo tipo:
- Queria sorvete, era feijão ou qualquer outra coisa parecida. Eu não sei bem o que era. Vamos analisar.
- Queria sorvete, era caviar. Mas eu não sabia do que se tratava e joguei aquela gosma amarela fora. #zecapagodinhofellings
- Queria sorvete, era ensopado. E eu não tive estrutura emocional para lidar com o fato, almocei o ensopado mesmo assim e, depois, desatei a chorar. Sou péssima.
- Eu queria sorvete, era torta de brigadeiro com avelã e calda de chocolate recheada com uma imoralidade de leite condensado mergulhado numa violenta camada de granulado, morango, coco, biscoito e cereja. Enfim. Mas o que eu queria mesmo era sorvete e morram todos.
- Queria sorvete e era sorvete. E agora você está esperando o quê, querida? O Brad Pitt bater na sua porta coberto de chantilly?
- Eu nem queria nada, mas, veja bem.
Até que eu não tinha mais fôlego para conversar e empurrar o carro ao mesmo tempo e abandonei o ofício para sentar no gramado. E veio andando um soldado do batalhão do Imbuí, no meio da pista deserta, de bigodinho, armado até os dentes. Tenso.
- Esse carro não pode ficar aí.
- (É mesmo? Poxa, agora que a gente ia começar o piquenique??) Sim, senhor.
- O que vocês estão fazendo?
- (Yogaaaaaaaaa, baléééeeeeeee) Tentando chegar até aquele posto da BR.
- Hum? Vão atravessar a pista empurrando o carro? Apagado? Tá bom.
E foi embora. Aí, por um minuto, eu tive um devaneio. Na verdade, já faz alguns anos que eu ando teorizando se alguém assim aceitaria gerenciar a minha vida pessoal e de que maneira isso seria administrado. Alguém como ele. Acho que o Sargento Pincel toparia a empreitada só pelo prazer de ficar me seguindo pelo mundo afora com aquela cara irônica de bosta, lançando comentários despretensiosos, tipo:
- Vai matar aula no bar de novo, mariana? Em plena segunda-feira? Ok, tudo bem.
- Marcando três viagens de trabalho no mesmo mês? Mesmo? Certo, tranquilo.
- Indo para o escritório de all star e mochila? Sério? Não, nada contra.
- Vai sair com essa gente louca outra vez? Jura? Falei por falar. Acho eles ótimos.
Ah, resolveria tanta coisa.
Decidimos continuar sentados no meio fio naquele pesar contrito – ok, acabou, não existe nada além disso, morreremos – e sem nenhuma ideia. Ou melhor, sem nenhuma ideia que custasse menos de 100 dinheiros. Arrisco afirmar que sair dali nem era mais o objetivo, a missão agora era descobrir por quêêê, meu Deus, por quêêê precisava ser tudo tão difícil?? O ano de 2011 havia sido especialmente duro e 2012 estava começando bem – eu tardiamente comprando um carro e ele partindo para a viagem-decisiva-que-pode-mudar-uma-vida e, agora, o motor inerte no meio da rua, colocando os dois projetos em risco. Faltavam três horas para o embarque e eu me dei conta que, peraí, quantas pessoas eu já levei ao aeroporto nos últimos dias? Por que todo mundo à minha volta está embarcando numa viagem-decisiva-que-pode-mudar-uma-vida bem agora, justo quando eu queria ficar? Meus irmãos, meus primos, meus melhores amigos: o check-in virou nossa sala de estar e eu perguntei a Chaplin se eu deveria ir embora também. Talvez fosse hora de voltar para lá. “Voltar para aonde? Você nunca saiu daqui!”.
Às duas da manhã, desistimos: chamei uma carona para ele e um reboque para mim. Depois de tanto suspense, ele foi para o aeroporto e eu fui pra casa com o reboque – eu num carro em cima do outro carro, que legal – e cheguei em casa às quatro. Precisava comer e, então, de repente, na geladeira, havia surgido, do nada, para o meu completo susto, medo e assombro:
Um pote de sorvete.
Veja bem. Sem lacre, tampado, anônimo. Como faz?? Quem colocou isso aqui, meu Deus? Foi minha mãe, concluí. Mas oque havia ali dentro? Aquilo era uma mensagem dos céus, não era? Sim, por que Deus – ou o acaso ou o destino ou como queiram chamar – costuma agir assim, da maneira mais sorrateira, calculada e resolutiva. Ah, o recado estava dado. E se fosse mesmo feijão? Eu me conformaria, era a minha sina. Talvez não fosse nada disso, fosse outra coisa, sei lá, uma dessas máscaras cosméticas. Ou um pedaço de bolo. Ou pilhas recarregáveis. O que minha mãe colocaria ali dentro? Entre abrir ou não abrir, me detive imóvel e covarde pensando: e se eu descobrir que sempre estive errada? O que eu vou fazer da minha vida se isso for nada menos que um legítimo pote cheio do mais tradicional napolitano da Kibon? Hein??? Talvez também você, caro leitor, já esteja em pulgas se perguntando: FINALMENTE, NAQUELA NOITE, QUE RAIOS HAVIA DENTRO DA MALDITA EMBALAGEM DE SORVETE???
Jamais saberemos por que jamais perguntaremos.