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Miranda´s Party

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Alguém pode me explicar?

O bom e velho papel de carta erguendo-se da tumba décadas depois? Só um efeito de dessaturação + lomografia + frases adolescentes? O resultado é uma série de cartões com layout cafona e meio brega (o que agradou muito ao público por aqui, é claro. Cafona e brega? oi, prazer) e eu escolhi alguns bonitinhos para colorir esta quarta-feira em que, para minha completa surpresa, não fui contemplada com os 2 milhões da Mega da Caixa. Dá pra acreditar?

Cho. ca. da.

Essa vida é cheia de imprevistos.

Maio está aí, inferno astral bombando e eu resolvi promover um evento no meu aniversário. Comecei pelo mais difícil: a lista de convidados.

Eu costumo dizer que fazer qualquer lista de convidados é sempre um exercício de controle de danos. Na impossibilidade de convidar todos, você acaba excluindo os mais fofos, os de alma iluminada que topariam ficar de fora sem criar um barraco. Quanto ao pessoal mais maledicente, vingativo, capaz-de-me-jogar-um-ebó, fazer o quê? Melhor não arriscar.

A minha lista de 10 maus elementos recebeu um convite que começava assim:

E todo mundo confirmou presença por que todo amigo meu adora essas convocações meio publicitárias. Acho que a parte mais demorada da preparação deste evento (entenda-se: 2 litros de guaraná + pãozinho = evento) foi selecionar essa foto. O garimpo de velharias era enorme. Eu havia selecionado outras ainda piores, minhas e dos tais convidados – que, por amor à vida, não posso publicar aqui – verdadeiras relíquias do constrangimento. A gente era feio demais. Estranhos demais. Socorro.

AaaAaAAAa rutinha é boa, aAAAaaAaa raquel é má

Rainha da Sucata feelings: piriguete since 1982

Do baú, escavei um retrato clássico onde estavamos juntos posando com o timer em modo de espera. O vento desequilibrou a máquina fotográfica que estava apoiada em cima do muro, ela dramaticamente cambaleou na nossa frente e fez o registro um segundo antes de cair no chão. A nossa cara ficou assim…

Impagável.

Outra foi feita num fim de festa, depois de perdermos a última carona, quando rolou um momento Porta dos Desesperados no ponto de ônibus às 5h da manhã em uma rua desconhecida. Tenso.

- Are You Lost?

(Todo mundo lembra da Porta dos Desesperados, né? Aquele quadro no programa do Sérgio Malandro que persuadia as crianças a escolherem a porta errada e aí pulava um cara vestido de macaco lá de dentro? E depois ele abria a porta certa pra mostrar à criança tudo o que ela tinha perdido? Preciso fazer a analogia pobre ou todo mundo já entendeu? Ok, só checando).

Certamente, muitos outros fatos se perderam nos anais da história. Lembro que, na época, ouvíamos Legião Urbana, o Homem Aranha se pendurava nas Torres Gêmeas, o advento da foto digital era o máximo e frequentávamos sorveterias a quilo para beber refrigerante Taí. A Legião Urbana não existe mais, as Torres Gêmeas também não e qualquer referência à extinta marca “Taí” tornou-se uma palavra perdida num lado obscuro de um planeta muito distante. Do que eu gostava naquele período e, atualmente, continuo gostando? Talvez de foto digital. E sorvete.

A verdade é que eu não consigo lembrar de nada que me interessasse naquele tempo e que continue fazendo sentido hoje. E eu acho que existe algo de meio louco e meio mágico no fato de, por algum motivo, a gente ainda continuar fazendo sentido uns para os outros.

Este foi o livro de abril. Trechos do romance de Hesse:

“Desprezava conscientemente a burguesia e vivia orgulhoso de não pertencer a ela. Contudo, sob muitos aspectos, vivia inteiramente como burguês, tinha dinheiro no banco, ajudava alguns parentes pobres, vestia-se sem cuidados particulares mas de maneira decente e sem chamar a atenção; procurava viver em paz com a polícia, os coletores de impostos e outros poderes semelhantes. Mas além disso sentia forte e secreta atração pela vida burguesa, pelas tranqüilas e decentes residências familiares com seus bem cuidados jardins, suas escadas reluzentes e sua modesta atmosfera de ordem e decoro. Agradava-lhe ter pequenos vícios e extravagâncias, sentir-se antiburguês, esquisitão ou gênio, mas nunca fixava residência onde não existisse nenhuma classe da burguesia. Não se encontrava à vontade em meio de pessoas violentas e atrabiliárias, nem entre delinqüentes e criminosos, mas antes procurava sempre viver em meio à classe média, com cujos hábitos, normas e atmosfera estava bem familiarizado, embora pudesse ter contra elas revolta e oposição. Além disso, fora educado em meio à pequena burguesia e dela conservara um grande número de idéias e noções. Teoricamente nada tinha em contrário à prostituição, mas na prática não seria capaz de levar uma prostituta a sério ou considerá-la realmente sua igual. Aos criminosos políticos, aos revolucionários ou aos sedutores espirituais, podia amá-los como se fossem seus irmãos, ou respeitar o estado e a sociedade, mas não saberia como tratar um ladrão, um criminoso ou sádico, a não se demonstrando por eles uma compaixão eminentemente burguesa.

(…) O “burguês”, como um estado sempre presente da vida humana, não é outra coisa senão a tentativa de uma transigência, a tentativa de um equilibrado meio-termo entre os inumeráveis extremos e pares de opostos da conduta humana. Tomemos, por exemplo, qualquer dessas dualidades, como o santo e o libertino, e nossa comparação se esclarecerá em seguida.  (…) nunca será mártir nem consentirá em sua destruição, mas, ao contrário, seu ideal não é a entrega, mas a conservação de seu eu, seu esforço não significa nem santidade nem libertinagem, o absoluto lhe é insuportável, quer certamente servir a Deus, mas também entregar-se ao êxtase, quer ser virtuoso, mas quer igualmente passar bem e viver comodamente sobre a terra. Em resumo, tenta plantar-se em meio aos dois extremos, numa zona temperada e vantajosa, sem grandes tempestades ou borrascas, e o consegue ainda que à custa daquela intensidade de vida e de sentimentos que uma existência extremada e sem reservas permite.

(…) E, todavia, a burguesia vive, é forte e próspera. Porquê? A resposta é a seguinte: por causa dos lobos da estepe. Dos inadaptados. O burguês queima hoje por herege e enforca por criminoso aquele ao qual amanhã levantará estátuas.”

(O Lobo da Estepe / Hermann Hesse)

No dia em que eu decidi ir embora de Salvador, passava na tv um programa sobre as ondas de rádio. Falava que os sinais de celular, de aviões, programas de tv, tudo transita por ondas invisíveis que, muitas vezes, se perdem do curso e ficam pairando no ar. E que, no futuro, com uma antena, será possível captar dados eletrônicos do passado que ficaram perdidos no tempo e no espaço. Imaginei a arqueologia do futuro tentando colar este quebra-cabeça de átomos. Palavras soltas, notícias, canções. Frases ditas há anos atrás, assim, voltando no meio de expediente. Num futuro longínquo, que nem imaginamos ainda, o passado ecoando de novo e de novo e de novo.

Hoje, talvez seja exatamente essa a nossa relação, Salvador. O contato de uma antena distante, sem nenhuma sintonia. Desencontrada, incompreendida, replicando mensagens loucas. Revivendo vozes do passado, que vêm e vão, aos berros. Buzinas, britadeiras ecoando de novo e de novo e de novo.

Oh, minha terra, céu azul da minha infância. Meu amor despedaçado, revirado e dolorido. Quantas vezes eu te odiei um pouco, Salvador. Você que me faz igual a todo mundo, por que eu também sou de algum lugar e levo esse lugar comigo. O que fazer desta linha cruzada, dessa relação mal resolvida com uma cidade, como se ela fosse um mal elemento a quem já se amou muito e, um dia, se decide abandonar por que, céus, o que mais eu poderia fazer? Eu, que nunca a preferi por causa das suas belezas. Nem pela sua pele de asfalto gasto, nem pela sua tez de muro sujo, tampouco a amei turística e enquadrada por Verger, mas sim como se ama a um filho feio ou a um pai triste, alguém que é bom o suficiente só por ser o seu igual, sangue do mesmo sangue. Mas ela pisou demais, forçou demais, abusou. Me comprimindo até o limite, dura, difícil. Cuspindo fuligem e gás carbônico, eu arranquei Salvador de mim. Doando miçangas, perdendo o sotaque – me esvaziando, abrindo caminho, deixando a mala mais leve e a alma mais livre – tudo isso, meu Deus, pra quê?

Salvador sempre volta. E eu sinto um elevador de gelo subindo por todos os meus andares cada vez que eu ouço falar. E um ciúme louco de todo mundo que a transita mais do que eu. Quando há uma foto na rua, uma notícia no jornal, uma música ao longe – “Eu sou o cheiro dos livros desesperados…” – e, então, fugir e mentir e negar esse amor mal acabado sempre me parece a coisa mais covarde que eu poderia fazer.

Salvador me dói. Animal cabeceando as grades da jaula, mesmo quando a porta está aberta. Como se eu fosse um saquinho de gudes de metal que se desintegram em mil partículas pelo mundo afora, para serem surpreendidas por um ímã repentino e retornarem autônomas, teleguiadas, derrubando tudo pelo caminho e se amontoando outra vez sobre o mesmo ponto, sem conseguir se rearrumarem na posição anterior. Salvador me desorganiza. Refazenda. Reconvexo.

Mas alguma coisa se quebrou e, não, eu não moro mais lá. Faz muito tempo. Mesmo estando em Salvador, eu sou alguém que está de passagem, que está voltando continuamente, sem chegar nunca. Numa esteira rolante, no fluxo contrário, andando, andando, sem avançar. Dentro do taxi, com o coração aos pulos. Na direção errada. Cada vez mais distante.

Eu espero por Salvador em quartos de hotéis de qualquer lugar. E Salvador me chega, às vezes, assim, pelas ondas do rádio – em frases soltas, palavras dispersas: Meca, Zion, Itabira, Macondo. Sombra da voz da matriarca da Roma Negra. Aonde o mar arrebenta em mim. Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando. Oh, bruta flor do querer.

Eu nunca saí de lá.

Sou fã, sou fã…

Olha aí as fotinhas de ontem.

(Salvador, 14 de abril de 2012, 35 graus)