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Amor passageiro

Às vezes, alguns anúncios da tv a cabo aqui de casa me fazem lembrar de duas coisas:

1 – Por que foi mesmo que, um dia, eu decidi cursar publicidade;

2 – Por que foi mesmo que, um dia, eu decidi ter tv a cabo.

Pra quem não entendeu o que o hombre fala no final:

“Não são os novos trens nem as novas estações que mudam o seu caminho.
Metrô de Madri: te levamos por dentro.”

Passárgada

O problema é que eu nunca tive pra onde voltar. Pense comigo: a gente sabe que quase todo mundo que mora em Salvador nasceu em outro lugar – numa cidade de interior, num distrito, numa beira de estrada qualquer. Daí o cara cresce e vai morar na capital, mas basta ter um feriado, um São João, um batizado-de-cachorro-louco pra ele querer voltar lá, rever a família, os amigos, festejar os velhos tempos e, depois, retornar de Passárgada batendo no peito e dizendo que aquele sim é lugar bom pra se viver. E eu me perguntando: então por que raios o cara não vive lá? Mas acho que, no fundo, eu sempre soube a resposta. Justamente por que eu nunca tive essa opção.

Quando eu estudava no colégio primário, a volta às aulas era o reinado dos imigrantes interioranos saudosos do paraíso perdido. Horas e horas de relatos mirabolantes sobre as férias na cidadezinha não-sei-de-quê, que fica não-sei-aonde, um desses lugares que eu não conhecia e, provavelmente, não iria conhecer nunca. Daí se um coleguinha dizia que em Cabuçu só tem peixe de duas cabeças, que em Paramirim tem árvore de mil anos, que em Tabocas do Velho Brejo tem lobisomem, saci, caipora, enterro de anão e máquina de dinheiro, só me restava acatar, afinal, quem ia lá pra conferir? Na faculdade, a coisa piorou. Era fulano ter um problema, uma nota baixa, uma unha quebrada e pronto: voltava para a casa dos pais pra chorar suas mágoas no tal oásis bucólico no fim do mundo com direito a ovações de filho pródigo e bandinha tocando no coreto. Ou, se o recall de prestígio andava baixo, era hora do cidadão viajar e retornar destilando novidades – o fim de semana foi ótimo, muita festa, muitos amigos, namoros e aventuras bombando lá em Boa Vista do Tupim enquanto vocês estavam aqui, levando essa vidinha insossa. Mesmo que não fosse necessariamente com essas palavras, mesmo que não fosse necessariamente verdade. Todo mundo fazia isso, menos eu. Afinal, eu ia fugir pra onde, meu Deus?

O problema é que eu nasci em Salvador, cresci em Salvador, passei as férias nos arredores de Salvador, ou seja, meu território era o quintal de todo mundo. Conhecido demais, pisado demais. Nenhuma aura de mistério, nenhum fato desconhecido que eu pudesse aumentar, piorar e distorcer com toda a minha capacidade criativa – afinal, se um peixe de duas cabeças resolvesse aportar na praia de Amaralina, isso já teria dado no jornal, no Bocão e no Varela. Enfim, um talento desperdiçado.

Daí, pra poder contar que a minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, o jeito é viajar. E alguém que já nasceu numa capital tem dificuldades de transformar a gran-urben-natal num potinho perdido o mapa, mas consegue: viaja pra longe, monta residência do outro lado do oceano e já pode mentir à vontade, certo? Errado.

Errado por que a capital em questão é Salvador e nada que eu invente vai ser mais absurdo do que a versão real. E é só dizer que eu nasci numa cidade onde o instrumento musical típico tem uma corda só, onde existe uma praça chamada Terreiro de Jesus, onde as vésperas de feriados são enforcadas e os nativos são capazes de gastar até três salários mínimos num abadá de Carnaval para a história ganhar tons apoteóticos de lenda urbana. Entendem? E cá estou eu, de novo, sem oportunidade de dar vazão a minha prodigiosa e recalcada capacidade imaginativa, já que é só contar a verdade pra ver o queixo do povo rolando no chão. Tédio.

E o pior nem é ser tolida desta oportunidade única de mentir descaradamente. É não inventar nada e ainda ter que ouvir essa gente perguntando desconfiada: mas se tudo isso é verdade, por que raios você não vive lá?

Pedro procura Inês

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Quando eu penso que já vi tudo nesta vida, aparece um colega meu de faculdade pichando a cidade inteira com a frase Pedro procura Inês. Quis saber por fontes oficiosas o que estava acontecendo e explicação veio antecedida por uma rápida contextualização político-cultural: aquela era um referência a um fato acontecido em Portugal nos tempos do reinado, quando o então príncipe D. Pedro I apaixonou-se por uma mulher sem sangue azul, a Inês de Castro. O pai de D. Pedro, para evitar problemas diplomáticos, exilou Inês num castelo perto da Espanha, mas o cara não desistiu da moça. Daí o rei não viu outra alternativa se não mandar assassinar a plebéia, por que, como todo mundo sabe, na briga do mar com o rochedo quem se acaba é o camarão. Pedro, desinformado, continuava a procurá-la e, quando soube do acontecido, ficou revoltado: arrependeu-se de não ter enfrentado o pai antes, levou o cadáver ao reino e obrigou toda a corte a uma cerimônia de coroação e beija-mão à rainha morta. Episódio verídico que entrou para os Lusíadas, de Camões.

Depois deste parêntese histórico, a fofoca em si: meu colega havia namorado durante muito tempo com uma Inês, sendo conhecido por ser um namorado ciumento e chato. Daí, quando a Inês desta história resolveu tirar o cavalinho da chuva e amarrar em outras paragens, o cara endoidou: rabiscou os muros da cidade toda e até fez uma página na internet para falar sobre sua dor de cotovelo, suas saudades, coisa e tal. Ou seja, ao invés do cara guardar o arrependimento dele e ir sofrer calado num rancho fundo bem pra lá no fim do mundo, o cidadão faz um blog aonde todos possam opinar sobre o seu infortúnio, lamentar, dar tapinha nas costas. Bem, eu imagino que esse tipo de comunicação nem seja usado para mobilizar a piedade alheia, mas só obter um feed-back, tipo um eco da própria consciência, onde todo mundo lê e comenta: cara, a culpa é sua, você foi irresposável, você merece tudo o que está passando e a gente só está aqui se solidarizando por que gostamos de ver a justiça sendo feita. O que pode ser mais compreensível?

Eu compreendo. E, na verdade, só lembrei dessa história do Pedro por que cheguei do serviço agora e sentei decidida a dissertar sobre o meu novo e cansativo trabalho, mas daí lembrei que havia publicado no Orkut as fotos da última viagem. E concluí que, necessariamente, uma coisa contradiz a outra. Afinal, não dá pra posar ao lado da Fontana di Trevi e, no dia seguinte, chegar em casa com cara de paisagem maldizendo a minha situação financeira, os meus subempregos de segunda a segunda até as 21 horas e a minha geladeira cheia de garrafas d’água sem ouvir: cara, a culpa é sua, você foi irresposável, você merece tudo o que está passando e a gente só está aqui se solidarizando por que gostamos de ver a justiça sendo feita. Eu sei, eu sei, pode bater por que eu mereço.

Então, hoje não me sinto no direito de reclamar da vida, o que me tole do meu assunto predileto: reclamar da vida. Daí, acho que só vai me restar recomendar o blog-muro-de-lamentações do Pedro, afinal, ele está arrependido. E, eu, nem isso.

www.pedro-procura-ines.blogspot.com

O retorno de Saturno

O trem elétrico fechou as portas um minuto antes que chegasse à estação e foi partindo sem ela – bem, paciência, não tinha mesmo pressa naquela tarde. Parou de correr, deixou que a máquina seguisse, tudo bem, pensou ofegante suando dentro do casaco, a maquiagem desmanchando sobre o rosto quente. Nos últimos dias, diante do imponderável, aceitava. E aceitar era fácil, quase divina aquela conformação plácida de quem compreende e tolera todas as coisas – ainda é cedo, ainda há sol, mentalizava sem maldizer o atraso, a distância, a inconstância do tempo num esquenta-esfria o dia inteiro, o fato de estar outra vez voltando pra casa a pé e pressentindo aquele blush barato desmanchando na cara feito tinta guache, o trem partindo, os ombros curvados, tudo bem.

– Olha só você! – era uma voz conhecida, ela virou-se, meu Deus, a quanto tempo ele estava ali? – Você não mudou nada, você também não, por onde anda, cara, mas que saudade – foram atropelando cumprimentos, frases tão típicas de quem não se vê a algum tempo ou mesmo a muito tempo e não sabe exatamente o que dizer diante do que vê, um abraço apertado, meio desajeitado, que deixou uma das luvas de lã com o fio preso no zíper do casaco do outro – pronto, agora a gente não se desgruda mais, ah, pois é, nunca mais – risos. E depois do riso um certo silêncio, o ruído de um novo trem se aproximando, a hesitação entre chamar o rapaz pra tomar alguma coisa em algum lugar ou dizer sorridente qualquer frase de fuga, vamos-marcar-qualquer-coisa-um-dia-desses-beijos-me-liga e sumir num daqueles vagões que abririam-se em minutos, um adeus da janela, adorei te encontrar, eu também, não some, se cuida, sim, o melhor era sumir no próximo vagão – quem diria você aqui, hein? – foi falando com o intuito de começar uma despedida, resolvida a não remexer naquilo, mas, num minuto, nem sabia dizer como, já estavam sentados na mesa de um café antigo, toalhas brancas, cortinas de renda, um cardápio na mão e a sensação de que já era tarde demais para escapar. Quando o garçom trouxe as duas xícaras ele contava sobre um projeto, quase dois anos para concluir, mas concluído, um edifício de galerias desenhado por ele, primeiro trabalho de peso – meu primeiro filho já nasceu com trinta metros! Quero o teste de DNA – riram, ele orgulhoso e ingênuo, gesticulando muito e um pouco engraçado naquele casaco onde lhe sobravam ombreiras, tentando resumir os últimos anos em historietas com muitos personagens, enredo impossível de acompanhar. E aquele clima de narrativa descontraída teria durado mais tempo se, de repente, ele não perguntasse pela vida dela, no que fizera desde que deixaram de trabalhar juntos, e ela dissesse que havia mudado de ramo, que tudo havia mudado um pouco, mas que até tinha saudades do escritório, das plantas que faziam, do grafite zero oito que ele pegou e nunca devolveu, epa, isso não é verdade, ele interviu rindo, eu ganhei  quando você perdeu a aposta, ela duvidou e ele disse, sim, você mesma, quem mais apostaria comigo algo tão besta quanto a origem dos Beatles? Ela baixou os olhos achando graça, nossa, isso faz tanto tempo, pois é, mas eu lembro, você lá da mesa seis gritando (e nessa hora ele gracejava com voz feminina, exagerando nos “as”) olhaaaaa, pois foi em Londres, eu aaaaposto. Os dois riram, ela negando, olha, eu não falo assim, ele insistindo, está vendo aí, você acabou de dizer olhaaa, e então ele tirou do bolso uma caneta, rabiscou num guardanapo e ela reparou que já não usava a Bic azul, original e costumeira, mas uma outra, tipo Parker, desenhou no guardanapo um esboço da mesa de trabalho deles, os adesivos no armário, os ímãs de telefones de fast-foods com entrega em domicílio, os detalhes da pilha de CDs e o brasão do Super-Homem que ela havia colado no topo da tela do PC, você viu o último filme? Não, nem o último, nem nenhum, ah, não me diga que você ainda curte esses heróis de gibi, ele ironizou, ela disse que sim, que ainda gostava, que no último filme havia uma cena ótima, um piano afundando no mar, ele interrompeu dizendo que não, que não fazia sentido que ninguém desconfiasse daquele personagem com um disfarce tão bobo, só um óculos e ninguém reconhece o cara? História mais doida, foi falando implicante, só me falta agora você me dizer que também continua rasgando papéis por aí, e ela disse que sim, que ainda tinha mania de rasgar folhas de papel em mil quadrados iguais a cada momento de stress, picotes que às vezes ele catava no fim do expediente e montava um desenho qualquer sobre a mesa, um pássaro, uma casa, uma frase: salve as árvores! E ela lembrava rindo, olha, você não mudou nada.

Nessa hora o garçom chegou com as torradas, nenhum dos dois lembrava mais das torradas, esperou que o garçom saísse e continuou: outro dia eu voltei lá no restaurante do Pina, lembra dele? Sim, ela recordava o lugar e o disco que sempre tocava, por que o Pina era meio tosco, só tinha dois ou três discos, todo dia na hora do almoço as mesmas músicas arranhadas, “É uma índia com um colar” e a faixa sempre engasgava na mesma parte “colar, colar, colar”, você lembra? Sim, ele também lembrava: depois até comprei um CD igual pra poder ouvir a música inteira, ele foi dizendo com ironia e ela ficou sem saber se era verdade ou não, mas não importava. Foi então que ele passou a mão na testa como quem busca algo na memória e ela comentou, ei, seu cabelo está caindo, e ele disse, é, eu sei, vinte nove este ano, ano que vem é trinta, e passou a mão na testa outra vez e ela cantarolou “aos vinte e nove, com o retorno de Saturno” tamborilhando com a colher na borda da xícara, mas calou em seguida, os dois olhando para o bule em cima da mesa, silêncio. Até que voltaram a falar, e falaram muito sobre qualquer coisa assim, vaga, e ele perguntou se um dia ela voltaria ao escritório e ela disse, não, eu acho que não, e ele abanou a cabeça com os olhos na mesa, desenhando rabiscos com a caneta Parker e disse: nem pra apostar uma zero oito? Ela riu e depois falou com um tom surpreso, nossa, olha como é tarde, já anoiteceu lá fora e ele disse, é mesmo, quanto tempo se passou? Ela olhou pra janela, as cortinas de renda, as luzes acesas: eu também não sei. Saíram do café e, em dois ou três minutos, estavam novamente na parada, aproximava-se um elétrico cheio, o chão da estação trepidava. A despedida foi rápida, adorei te encontrar, eu também, não some, se cuida e já dentro do vagão, acenando da janela, ela foi cantarolando “corre a lua por que longe vai, sobe o dia tão vertical…” e depois foi lembrando do piano no fundo do mar e de outras cenas que quase ninguém viu, ou que ninguém reparou, e de repente, pensando melhor, ela concordou e também achou que todos os personagens do filme eram mesmo uns idiotas por não perceberem que Clark Kent era o Super-Homem.

03

Praça da Baixa, Lisboa, 5:31 a.p., 14 graus.


Mas há também o que nos mate aos poucos, lentamente, feito ferrugem consumindo os dedos das estátuas. A gente sabe que está morrendo um pouco mais e se conforma. E se entrega. Abandona-se como num banho de chuva envenenada, deixando-se encharcar por todos os poros, pressentindo o mal infiltrando-se no corpo inteiro. Para, um dia, deixá-lo escapar assim, de repente, pelo canto dos olhos.

(Trecho de um textinho antigo do blog)

Pertencer

Arrumava-se para sair. E saía. Cabeleira repartida ao meio, como sua mãe lhe ensinara nos primeiros anos de escola, linha reta e sem embaraços, cada fio na sua mecha, cada mecha em seu lugar. Era assim que o sabia, desde antes, desde sempre, penteava-o com o mesmo esmero detalhista, destino traçado da cabeça à coluna. Repetia involuntária como quem herda um ofício nato e talvez fosse isso mesmo, já que todos tinham a mesma marca, obra-prima da biologia – pais, tios, primos distantes – genética forte, ascendência oriental, diziam. E ela pertencia.

Só isso. Nenhum outro costume incomum, os pés metidos nos sapatos gastos de quem entrega malotes oito horas por dia em corredores de repartição. Óculos, por necessidade. Certo ar metodista no arquivo de correspondências, ordem alfabética, número crescente, aguarde, por favor, no final da fila. Relógio de pulso, broche de metal, caneta azul para os documentos, caneta preta para os comunicados, porta-retrato sobre a mesa, anjo de gesso, flores de plástico, rabisco de lápis na agenda aberta, salão de beleza, horário marcado. Depois, algum tempo livre. Certamente, para desembaraçar, lavar e pôr-lhe o mesmo penteado.

– Boa noite! – Boa noite, senhora, tem marcação de corte com o Eudir, sim? – Sim – Infelizmente ele se ausentou, assunto pessoal, mas temos outra pessoa, se a senhora quiser – Ele não volta? É coisa simples, só aparar – Acredito que não, mas temos o Fred, bom profissional… – Não deixou recado? – Não. Posso chamar o Fred? – Sim… pode…

Na volta, a rua escura. Consternação. Algo havia corrido mal. Agora, a ponta do cabelo beirando o pescoço, a garganta, um nó. Como os amputados que ainda sentem fisgar o membro perdido, os ombros vazios agora lhe pesavam, ela não acreditava. Nada mais podia ser feito. Elo perdido, corte umbilical, maldito dia, maldita hora. Laço desfeito. Já não podia continuar.

Os dias se passaram. Tristeza. E, como todo barco sem leme só navega em círculos, ela se dispersava. E as mudanças vieram, inevitáveis para quem já não é algo e ainda não é uma outra coisa. Transição. O anjo de gesso sobre a mesa, os homens na fila atrás do balcão, a repartição, ninguém percebia. Como quem escolhe uma nova identidade – castanho, rouge, loiro, mesclado – experimentava um caminho sem mapa – cachos, trança, corte desfiado. Mas nunca mais se reencontrou no espelho.

Dias e dias se passaram. E, por que desistir é o caminho natural de quem luta contra o inevitável, ou por que é preciso se estar suficientemente distraído para tropeçar nas soluções, a natureza seguiu o seu rumo. Quando ela parou de procurar. Se reencontrou num dia comum, um tempo depois, quando os fios cresceram. Cada fio na sua mecha, cada mecha em seu lugar. Desde então, podiam lhe mudar a corte, a cor, o comprimento, podiam lhe podar bem curto, nos ombros, na carne, houvesse o que houvesse, não duvidou por um momento. Ela pertencia. Por que as raízes ficam por dentro.

Aula II

- Epa, estou a precisar de uma imagem para este editorial. Algo poluído, denso, algo porreiro. Em preto e branco. Acaso, dúvidas?

- Bem … eu tenho, quer dizer… fotografar em PB é como pedir um músico para compor com duas notas, é jogar com duas peças de xadrez. Talvez a gente esteja empobrecendo o que poderia ser rico e…

- Olha, gaja, pois que somos pobres. Só dois olhos, só duas pernas. Pareço incompleto sem um terceiro braço? Duas cores. E não se está a falar mais nisso.

Limítrofes

- Professor, há como indicar uma bibliografia para este assunto dado?
- Sim meu caro, mas, infelizmente, apenas em idioma estrangeiro. Há problema?
- Não.
- O rapaz prefere em francês, italiano ou alemão?
- Tanto faz.

Diálogos como estes no fim da aula me dão a medida exata do abismo intelectual entre eu e os meus colegas. E me fazem crer fervorosamente que as minhas boas notas devem-se a mais autêntica evidência da generosidade divina. Amém.

Como prova de uma fé inabalável no poder do milagre, este semestre a mobral aqui matriculou-se em dois cursos, ou seja, pega mais matérias do que qualquer aluno normal. É que uma pessoa andava sem muitos problemas na vida e resolveu encomendá-los em atacado. Metade das matérias são em Jornalismo, metade em Edição de Texto – em edição de quê? – Edição de Texto, aquele curso direcionado a quem não foi cético-capitalista o suficiente pra cursar Publicidade, nem hippie-romântico o suficiente pra cursar Artes. Pra quem quer ser editor – aquele cara que recebe pilhas de material artístico todo dia, lê, analisa, separa o joio do trigo e publica o joio.

Hoje foi o segundo dia de aula. Curioso estudar numa classe limítrofe. Notei que meus colegas, além dos óculos de acetato e do casaco Adidas, possuem outra coisa em comum: um projeto na gaveta. Um projeto de filme, de livro, de exposição, de bomba nitrogenada, de qualquer coisa que continua lá, na eminência. Se esses projetos tivessem sido tirados da gaveta para a vida real, esses alunos estariam cursando Cinema, Literatura, Artes. Se tivessem sido tirados da gaveta para o lixo, estariam cursando Direito, Engenharia, Medicina. Mas se a pessoa insiste em deixar um projeto na gaveta, não tem jeito: é colocar os óculos, vestir o casaco e fazer uma matricula lá.

Quando sobrar uma vaga.

Burocratas

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
(Drummond de Andrade / Confidência do Itabirano)


É nessas horas que dá vontade de voltar. Pelo menos por uns cinco minutos. Depois de uma discussão de meia hora com seu professor por motivo acadêmico-burocrático-idiota, onde você nem ele resolvem nada, você sai com a sensação de que, além de não resolver nada, ganhou um inimigo e vai ter que rebolar pra passar na matéria. Massa. Você precisa desabafar. Desce as escadas, vai para o pátio enfurecida e encontra os colegas. Todos norte-europeus. Todos educados, arianos que não falam nomes feios, não usam hipérboles desabonadoras e nem dizem que vão matar o professor, amordaçar os funcionários, quebrar as salas de aula e destruir a faculdade toda até o prédio virar arte moderna. Não, essa gente não me entende.

Para não bancar a subdesenvolvida primata urrando na jaula, não digo nada. Volto pra casa com isso entalado. Aliás, sempre volto com alguma coisa entalada, uma grande alegria ou uma grande tristeza, por que essa avalanche diária de sentimentos extremados é herança latina maledita, não têm lugar nestas terras civilizadas. Onde o povo é sóbrio e ponderado. Onde faz frio por fora e por dentro, nas mãos e na alma.

A burocracia é isso: quando as palavras precisam passar por triagem antes de vir à boca. E espontaneidade é anarquia involuntária. Todo dia, carimbo e autentico minhas frases mais bobinhas. E nunca pensei que bater numa mesa para emendar uns dez palavrões pudesse fazer tanta falta.

Sexta-feira:

- Bom dia, a lavanderia fecha aos domingos, senhor?
- Não.

Domingo:

Eu carregando quilos de roupas e a droga da lavanderia fechada.

Segunda-feira:

- Meu caro, estive aqui em vão ontem. O senhor não disse que a lavanderia não fechava aos domingos?
- Pois. Se nem chego a abrir, por que haveria de fechar?

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