Ainda sobre 2011…
Ter ido para a Rússia sem nenhum planejamento foi um daqueles erros que a pessoa só comete se for corajosa. Equivale a uma infância com aquele episódio básico de acrobacia em cima da árvore, de onde toda criança obviamente despenca, quebra a perna, o braço, a cabeça e depois fica indo para a escola toda engessada, alardeando um drama, contando e recontando o incidente aos colegas, acrescentando fatos novos a cada versão e repetindo: não façam isso em casa, amiguinhos. O que é, invariavelmente, um convite. Claro.
Mas a verdade é que eu não tinha ideia de onde estava me metendo.
Acho que só tive a impressão vaga de que a coisa iria degringolar quando desembarquei lá. Havia uma média de quarenta cabeças e meia por metro quadrado – e isso era previsível. Afinal, aquilo era “Ásia”. Palavra que vem do latim: gentis sem tv em casah. Multidões que brotam do chão. Só me sobrava seguir aquela maré de gente pelo aeroporto, comprimida contra as leis da física, singelamente olhando para cima, admirada com o teto do saguão que se abria num enorme clarão de ferro retorcido, numa arquitetura super exótica:
- É arte moderna?
- Bomba. Atentado, muitas mortes este ano. Ficou bonito, né?
Silêncio.
Pois bem. Pegamos o trem. E a primeira coisa que eu poderia falar sobre o maior país do mundo é que ele é capaz de deixar qualquer espírito megalomaníaco com um brilho de insanidade no olhar. Ele é grande. É o superlativo elevado à obsessão. Desconfio de um surto de descontrole coletivo e eufórico, capaz de levar pessoas a construir edifícios estratosféricos, rasgar dinheiro na rua e correr arrancando os cabelos até serem detidas por dardos tranquilizantes. A arquitetura russa é uma loucura. Os russos não fora picados pela mosca branca. A mosca branca fundou a dinastia russa.
Eu estava embasbacada e irremediavelmente perdida há horas no segundo maior metrô do planeta. Caro leitor, tenha paciência: até então, meu conceito de cidade grande era São Paulo. Havia, inclusive, uma linha de metrô que andava em círculos sobre as outras e levava os andarilhos perdidos aos seus pontos de partida. Se perder em Moscou era um problema comum – e gravíssimo.
Faltava pouco para eu encarnar o Tom Hanks deportado e constituir residência no aeroporto mesmo.
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- Anyone falar inglês?
Tempos atrás, já havia sido difícil me localizar numa Berlim onde todas as placas estavam escritas em alemão e as legendas em inglês. Agora, todas as placas estavam escritas em russo e as legendas em… alemão! Cada vez em que eu abordava alguém – can you help me? – a boa alma me olhava com uma expressão desacreditada de quem presenciou um grunido primata e respondia em russo, soletrando alto, como se falasse com um bebê: vaaa-daaa-kooos-taaa-laaa-duuu. Não compreendeu? Então vá se f***!!!
Essa parte eu entendia.
Esperei por um milagre. E a solução chegou do alto – do letreiro. Bastava comparar os hieróglifos do guia turístico com os das placas (não estamos falando do alfabeto romano, ok?) e procurar o nome da minha estação (que tinha 26 letras): um quadrado, duas borboletas, um raio, um sino, um círculo… e uma lua. Lá estava ela. Impronunciável. Houve mais uma hora de metrô. E mais uma hora arrastando as malas escadaria acima e escadaria abaixo, até desembarcar na grande avenida central de Tverskaya, que se abriria gigantesca na minha frente.
Eu estava subindo o topo da última árvore. E a paisagem lá de cima era incrível.

Esse blog merece ganhar um prêmio. Desculpa amiga to rindo
demais com seu “drama”…
Posta algumas fotos por aqui.
Bjs!
Quando [sempre acho melhor dizer "quando" do que "se"] eu estiver em todos estes lugares que você descreve aqui, tenho a impressão de que só conseguirei me lembrar dos teus relatos.