Então. (Mil anos depois).
Eu havia alugado um quarto em Moscou, num apartamento de estudantes. Três quartos, uns 15 residentes, uma decoração obscura e cafona (não que eu não tenha gostado, veja bem. obscuro e cafona? é aqui mesmo), uma lareira por cômodo e portas fechadas à vácuo. A maioria era imigrante, estava lá estudando teatro/circo/adestramento de pulgas e, já que não trabalhavam, todos passavam a noite inteira na cozinha cantando polcas e declamando épicos e brindando com grandes copos de (vodka? whisky?) chá verde.
Quase não falavam inglês. Mas a recepção foi tão calorosa que todo fim de noite terminava mesmo na cozinha, brindando chá, aprendendo xingamentos russos e dancinhas nacionais:
- Você ser do Brasil! Ula! Amazonka! Morar no Amazonka!
- Na verdade não é exatamente na…
- Eu gosto não de pensar ir ao Brasil. Terra de cobra gigante que come pessoas. Anaconda, cobra gigante. Mas gostar do Brasil, conhecer até um famoso. Um famoso do Brasil, grande futebol! Nome dele: Maradonka.
- Pois é, grande Maradonka! – E eu ia dizer o que? Que, no Brasil, não tinha nem Amazonka, nem Anaconda, nem Maradonka?
- E vocês, são daqui de Moscou?
- Eu ser da Sibéria.
- Uauuuu!! Da Sibéria! Polo Norte! Você deve morar no meio do gelo, que massa. Sempre vejo cenas da Sibéria nos filmes, acho tão interessante. Trenós, iglus, pinguins!! O que vocês fazem nos fins de semana? Visitam icebergs? Alimentam ursos? Eu nunca vi um urso!
- A gente ir ao shopping. Fazer compras.
Quando uma moça me perguntou se o Chile era um continente e se Portugal era uma cidade da França, eu desisti do papo geográfico. Até por que ela também disse que havia nascido na BIELORRÚSSIA – gente, o que é Bielorrússia?? – e que o namorado dela era de um país chamado QUIRGÍZIA – Qui-zi-o-quê??? – aí a gente decidiu abstrair os temas difíceis e falar sobre horóscopo. Maquiagem. Sei lá, tricô.
Quando amanheceu, eles nos levaram a lugares lindos. Nem vou gastar a paciência de vocês falando da Praça Vermelha, nem do Kremlin, nem do Poklonnaja Gora. Nem de como tudo em Moscou era tão ancestral e opulento que, a cada esquina, a gente sentia a cidade nos esbofetear por nossa insignificância. Eu estava encantada.
Só no dia seguinte chegou a hora insólita do processo. Sempre chega, né? (Se você está viajando comigo e nada ainda desandou a sério, aguarde. Vai desandar). Foi quando os euros acabaram e eu decidi converter a metade que havíamos levado em real. SÓ QUE OS BANCOS NUNCA OUVIRAM FALAR DO REAL. Tenso. Tentei as casas de câmbio:
- Vocês conhecem o Real?
- O Real Madri?
PÂNICO. TERROR.
Sabe, eu queria realmente poder dizer que é charmoso passar fome na Rússia. Especialmente, se eu tivesse o privilégio da metáfora. Visualize um daqueles grandes sacos com quilos de biscoito seco quebrado (aquele rejeitado pelos supermercados e distribuído a preços simbólicos) e água de torneira. E chá verde. Por dias. Até eu começar a alucinar. A ter visões. De madrugada, eu comecei a ver os colegas do albergue brilhando no escuro. Dormindo. Fluorescentes.
PÂNICO. TERROR. AGONIA. DESESPERO.
Se você acredita que tudo na vida tem um limite, esse post pode ficar complicado para você. Por que não bastava a fome, o frio, a falta de dinheiro, tinha que ter um encosto sobrenatural na história. Tinha que rolar um Exu em neon. Eu não conseguia dormir. Não relaxava com aquela gente brilhando, meu Deus, toda noite aquele ebó? Espírito? Gente morta? Numa madrugada, eu precisei ir ao banheiro. Medo, muito medo. E um deles acordou. E me sorriu. Aceso. Feito uma lâmpada.
- Uaaaaaaaaaaiiiiiii!!!
Eu correndo louca pelo corredor me tranquei nervosa no quarto com o coração na boca arrastando a cama até a fechadura com aquela aberração batendo na porta:
- Abrir! Abrir, amazonka! Esse luz ser efeito do bronzeamento artificial. Todo mundo ter aqui. Não precisar susto, amazonka!!! Abrir!!
Que noite. Que vida.
Depois do episódio sobrenatural e do papelão desempenhado, outros acontecimentos se sucederam de forma que, para virar uma filial do Bukowski, só faltava eu me perder na hora de voltar para o aeroporto, cochilar no chão e, sei lá, quebrar o dente da frente. E assim Jesus concedeu.
Entramos no avião às 15h.
E essa foi a viagem que encerrou a programação de 2011. Muita aventura, amiguinhos. Desejamos a todos um ótimo 2012 e, se o mundo não pocar, a gente se vê por aqui.


Você é uma das minhas leituras de travesseiro. Relaxo ao ler.
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Mari, seu blog é diversão garantida!
Amiga, rachei os bicos de tanto rir com esse seu texto. Amei! Para variar maravilhosa como de costume. Parabéns e que neste ano muitas outras aventuras possam lhe inspirar a produzir textos igualmente incríveis. Bjus