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(Serrinha, Bahia, 5, 6 e 7 de abril de 2012, 24 graus)

Já disse para vocês que eu amo o que faço, né? Pois é.

 

(Serrinha, Bahia, 5 de abril de 2012, 24 graus)

 

Ano cheio de acontecimentos, gavetas sendo arrumadas e eis que ressurgem do baú histórias ótimas. Já que estamos em época de balanço – e na vida de toda pessoa perturbada, os relacionamentos imaginários são sempre mais bem resolvidos que os reais – vou apresentar para vocês alguns dos meus ex-namorados.

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CLARK KENT

Como nos conhecemos: Digamos que varreram a minha mente e construíram o moço sob medida. Discreto, inteligente, mais interessante que o Super-Homem. Sempre feito de besta pela Lois Lane, a piriguete-top-10 dos anos 90. Se, anos depois de conhecê-lo, eu me tornei jornalista e/ou piriguete, garanto que qualquer semelhança…

Divórcio: Apesar da laycra azul e do topete pimpão, não há previsão.

Recaídas: Constantes.

 - Me arrebata, perco o chão.

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CHARLIE BROWN

Como nos conhecemos: Este garoto gostava de ouvir Beethoven, conversava com um cachorro e tinha todo tipo de neuroses – alma gêmea existe!

Divórcio: Na adolescência. Por motivos óbvios.

Recaídas: Sessão da Tarde.

 - Cabeção redondo, ar meio perdido, mas a gente segue amando.

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ELVIS COSTELLO

Como nos conhecemos: Ninguém aqui é tão novo que não conheça, nem tão velho que já tenha conseguido esquecer. “Não importa onde você esteja, isto é alta fidelidade, você pode me ouvir? Você pode me ouvir?”. Some tudo isso a coreografias estranhíssimas e adoráveis, como essas aqui e aqui.

Divórcio: Diferenças de idade e de localização geográfica. Eu, sempre na hora e no lugar errados.

Recaídas: No rádio, no mp3, nos toques de celular de metade da humanidade.

- Se fizer dancinha, eu caso.

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 ANDRÉ

Como nos conhecemos: Houve um tempo em que eu era jovem e frequentava salas de cinema. Lembram de O Homem que Copiava? Uns zóio meio tristes, um jeito meio mucho, mas-quem-nunca? Pegava linda.

Divórcio: Assistir o mesmo ator na pele de Madame Satan, no cinema. Gente, alguém me explica?

Recaídas: Às vezes, quando toca a trilha – “E agoooora, que faço eu da vida sem vocêêêê?” – e tôdas-chora.

- “Você não me ensinou a te esqueceeeer”.  

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PETER

Como nos conhecemos: Ele foi o namorado rejeitado por Clarissa Dolloway, no romance de Virgínia Woolf, o Mrs. Dolloway. Ela casa com outro e ele fica meio obcecado, sumindo e reaparecendo da vida dela ao longo dos anos. Problemático, apaixonadíssimo, todo errado. Clarissa, manda lá pra casa!

Divórcio: A indecisão do mancebo. Mereceu mesmo aquele chifre, né, filho?

Recaídas: Ah, em todos os parágrafos. Tipo em: “- Eu também vou – disse Peter, mas deixou-se ficar sentado, um momento. Mas que terror é esse? Pensou consigo. Que êxtase me vem? Que é que me enche de tão extraordinária excitação? É Clarissa, descobriu. Pois ela ali estava.”

- Estado civil: vem que to facim. 

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 JOSH GROBAN

Como nos conhecemos: Cara de escoteiro + voz de tenor = uma mistura meio confusa, eu sei. Pianista e cantor erudito, jovem demais para o mundo clássico, refinado demais para o mundo pop. Tímido e careta, canta em quatro idiomas e é parceiro de Nelson Mandela em movimentos pela fraternidade mundial. Quem achar um defeito, me avisa.

Divórcio: Não haverá. Esse é casamento mórmon, pela eternidaaaade.

Recaídas: Sempre que assisto clipes como este ou aquele.

– Resumindo, aonde eu assino? 

RICHARD COLLIER

Como nos conhecemos: No clássico Em Algum Lugar do Passado. Ok, não me olhem assim, vejam bem, nem vou defender o personagem, nem dizer que a história é linda, a gente sabe que se ele resolvesse interpretar o vilão ou o duende ou a árvore do cenário, iria entrar na lista do mesmo jeito. Então, vamos falar sobre, sei lá, futebol.

Divórcio: Quem é louca???

Recaídas: Três vezes ao dia.

- Hey, Christopher, pinga nin mim! 

WILL

Como nos conhecemos: O dono da livraria no filme Um Lugar Chamado Notting Hill – todo mundo lembra dele. Desajeitado, cara amassada, andar meio amuado… (suspiros).

Divórcio: Amigos estranhos. Quem é aquele colega dele, hein? O que fazer com o tal amigo feio louco retardado que certamente foi parar lá sob influência do capeta??

Recaídas: Dignidade, cadê?

- Parece cocaínaaaaaa, mas é só tristeza. 

JONH KEATS

Como nos conhecemos: O poeta inglês ingênuo, romântico e sem teto que biografaram em Bright Star, esse filme aqui. Versos sobre heróis mouros + jardins de alfazema + rapazes com cartolas de veludo = uma nostalgia absurda de ter nascido no século errado.

Divórcio: Perdi minha fortuna no jogo, me entreguei à bebida e cancelei minha assinatura da tv a cabo.

Recaídas: Assisto à reprises ocasionalmente, em salas de espera. Que pobreza, que pobreza.

- Quer cortar os pulsos, pergunte-me como. 

MR. DARCY

Como nos conhecemos: No livro Orgulho e Preconceito, da Jane Austen. Ele é educado, honesto, inteligente (e, só pra somar: podre de rico), se apaixonou por uma plebéia e é capaz de aguardar pacientemente pela louca (existe outro adjetivo??) que não o quer. Agora, respire fundo e pense comigo: quais as chances deste ser existir sob condição humana, real e palpável acima do planeta Terra? Hein?? NENHUMAAAA. Teleportado do mais alto degrau de pré-requisitos do imaginário feminino e preenchendo todas as exigências estratosféricas da raça, senhoras e senhores, apresento-lhes Mr. Darcy.

Divórcio: Quando resolveram transformar o livro em filme. Essa gente devia ser presa!

Recaídas: Não consigo reler um capítulo sem ter que chamar a Samu.

- Eu sou perfeito e morram todos.

Este são os homens da minha vida. Do que eu posso reclamar?? É fato que, nesse caso, morrerei sozinha numa biblioteca cheia de gatos e revistas Bravo, a menos, é claro, que você esteja lendo isso, querido Mr. Darcy!! Meu bem, mande notícias! Eu toco piano, bordo e danço polca! Vamos fugir para Londres, seu lindooo! Beijosmeligaaaa!

Sofro, né?

(Xingó, Sergipe, 13 de março de 2012, 32 graus)

Os mascarados

“E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
(…) E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.”

(Restos do Carnaval/Lispector)

(Maragogipe, Bahia, 21 de fevereiro de 2012, 35 graus)


“A negra ia apanhando o tabuleiro. Henrique ajudou-a a botar as latas vazias em cima. Ela perguntou:
- Você sabe qual é a coisa mais melhor do mundo?
- Qual é, minha tia?
- Adivinhe.
- Mulher…
- Não.
- Cachaça…
- Não.
- Feijoada…
- Não sabe o que é? É cavalo. Se não fosse cavalo, branco montava em negro…”

(Jorge Amado / Suor)

 


(11 de fevereiro de 2012, Casa de Jorge Amado, Salvador, Bahia, 29 graus)