Toda sala de aula tem um Golias. Um colega mais alto e mais forte, capaz de ameaçar e submeter os outros. Quando criança, conheci um que obrigava os colegas a fazerem as suas provas e, depois, curiosamente, sempre dava um jeito de exibir as boas notas aos professores. Em qualquer oportunidade, lá estava ele, boletim na mão, sorriso na cara, a imagem do êxito. Nunca soube se os professores descobriram a farsa – e, talvez, nem precise saber. Mas tenho certeza de que nenhum de nós, os colegas, esqueceria daquela cena.
Lembrei deste episódio esta semana, lendo um jornal onde Portugal estava divulgando uma votação para eleger as “7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo”, selecionando monumentos na América, Ásia e África. Uma estratégia para elevar a auto-estima lusitana e levá-los aos holofotes do primeiro mundo. Todos os concorrentes já eram considerados patrimônios da humanidade pela UNESCO e foram construídos durante o período colonial. Selecionados pelo voto popular através da internet e telefone, os vencedores estão localizados nos seguintes países: China, Cabo Verde, Marrocos, Índia (com duas obras) e Brasil (também com duas obras). Uma delas na Bahia.
Trata-se do conjunto de edifícios do Convento de São Francisco de Assis, no Pelourinho. Uma construção de 1587 que os baianos conhecem pela beleza e opulência. Comemorando o resultado, Jeanine Pires, presidente da Embratur, declara que: “Este é um grande ganho para o nosso turismo”. Agências de viagem comemoram. Empresas de aviação comemoram. Baianos, desinformados, comemoram. Por que, na Bahia, a gente comemora até o que não entende direito.
Por sorte, há vida inteligente sobre a Terra. Historiadores de todo o mundo estão assinando uma carta aberta contra o fato do concurso português não citar uma única linha sobre a origem escravagista de algumas obras. A descrição dos monumentos é unicamente arquitetônica, inclusive a dos prédios que foram construídos para armazenar e comercializar escravos. “Será possível desvincular a arquitetura dessas construções do papel que elas tiveram e que ainda têm, no presente, enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colônias européias?”, questiona o documento.
Imagino que os monumentos são erguidos para relembrar a história e não para ocultá-la. E, talvez por isso mesmo, seja constrangedor que o representante do concurso garanta que “esta visita ao patrimônio de origem portuguesa é feita com um sentimento de orgulho e de satisfação pelo legado histórico do nosso passado”. Que legado? A construção de suntuosos armazéns de escravos? De que maneira eles seriam motivo de ‘orgulho e satisfação’ para um país? Não sei. E também não sei por que Auschwitz não entra na lista das sete maravilhas alemãs pelo mundo.
Portugal foi responsável pela maior deportação da humanidade. Só da África Ocidental foram retiradas de 15 a 18 milhões de pessoas. Se levarmos em conta que, para cada escravo que chegou à America, cinco foram mortos, estamos falando de uma multidão de 90 milhões, número que ultrapassa em dez vezes a atual população lusitana. Uma transposição que, na voz do promotor português Luís Segadães, ganha tons de heroísmo: “Sem dúvidas, a globalização começou em Portugal”. Realmente. Realmente foram eles que nos ofereceram este intercâmbio pioneiro entre escravizados e colonizados, uma herança absurda e criminosa que nós, inexplicavelmente, não reconhecemos. Ingratos.
Diante de tanta polêmica, de tanto dinheiro gasto em publicidade, de tanto desgaste diplomático ocasionado por este concurso besta, o que fazer? Até que a ciência prove o contrário, culpa não é herança genética, ou seja, os portugueses de hoje não teriam que se desculpar por crimes que não cometeram. Não podem mudar a história: nem para se retratarem, nem para distorcê-la em concursos patriotas. A verdade é que, se o mundo resolvesse penalizar estes monumentos, teria que penalizar a todos os outros: as pirâmides, o Coliseu, os Jardins da Babilônia e tudo que a humanidade já ergueu sob regimes de escravidão. Falar dos crimes do passado seria falar de todos os crimes. E quem ficaria de fora deste tribunal?
A questão é outra. Aliás, são outras. Estamos diante de nosso ex-colonizador que, trezentos anos depois, reaparece para mostrar ao mundo o legado que nos proporcionou: um convento erguido sobre solo baiano, por escravos baianos, forrado com ouro baiano, que o povo baiano tem restaurado e preservado desde então. Tudo isso sendo exibido como maravilha portuguesa? Ironia. Me desculpe, Golias, mas este mérito não é seu.
O Convento de São Francisco de Assis é nosso. Na sua arte e na sua história, em cada pedra selada com o sangue da gente. Se os lusitanos só lembram da arquitetura dele, é por que a vida é assim mesmo, quem bate sempre esquece que bateu. Acontece que o convento fica bem no Pelourinho, no centro da vida negreira, no palco do genocídio. Não dá pra esquecer. Portugal pode até reduzir a sua história a uma lista de monumentos alegóricos, mas não pode reduzir a nossa. Nossos bisavós não nos perdoariam. A gente lembra, cara pálida.



