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Em cinco anos

“Olhando para ele na praia até você poderia entender a graça dele para as moças: era bonito, mas logo ficaria feio. Isso o deixava ainda mais bonito. Era muito branco e trazia a pele acabada de sol e álcool e privação de sono, a cara sempre meio inchada de ressaca. Tinha sardas nos ombros e pele já fina e flácida logo abaixo do pescoço, de um jeito que poucos têm aos trinta. Tinha rugas ao redor dos olhos, também muito antes da idade, e uma espinha ou outra. Tudo nele era deslocado. Parecia além e aquém de seus anos, feio e bonito. Parecia mal tratado, uma pessoa que não se preservava. Enquanto todos se guardavam numa mesquinharia sem fim, ele se gastava. Era uma beleza que seria arruinada em cinco anos, você queria estar ali para ver.”

(Juliana Cunha / Reação no Mundo)

Filme: Aquárius

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“O medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas.”

(Carlos Drummond de Andrade / Congresso Internacional do Medo)

Eric Rohmer

“Chloe e eu jamais teríamos permitido a nós mesmos uma intensidade comparável de discussão dentro de uma amizade. Equacionamos nosso conhecimento um do outro com uma forma de propriedade e licença. Podíamos ser afetuosos, mas deixáramos a cortesia de lado. Quando Chloe e eu começamos a discutir um dia sobre os filmes de Eric Rohmer (ela os detestava, eu os adorava), esquecemos que havia uma chance de que os filmes de Rohmer pudessem ser tanto bons quanto ruins, dependendo de quem os visse. Ela desceu ao nível de dizer que eu era ‘um bosta enfadonho metido a intelectual’, eu respondi classificando-a de ‘produto decadente do capitalismo moderno’ (dessa forma, confirmando sua acusação).”

(Alain de Botton / Ensaios)

Filhos

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Como o Chaplin em Tempos Modernos, que sai da fábrica e continua apertando parafusos, eu me pego imaginando reuniões. Suponho mesas, suponho planilhas. Por exemplo, alguém concluindo que o Carnaval faliu, que a alegria faliu, que é hora de investir na tristeza. A equipe concordando. O assistente sugerindo a criação de um jingle para a tristeza, propondo usar uma rabeca. Rabeca é um instrumento medieval bem solene e fúnebre, precursor do violino, algo que a gente herdou do norte da África. É bom, mas talvez não seja melancólico o suficiente. Aí alguém sugere adicionar uns efeitos de ladainha católica, murmúrios de procissão sertaneja, monocórdios espirais de sacristia. Fica bom, fica histórico. Então, uma assessora argumenta que é necessário colocar uma letra na música. Escolhem um drama barroco: um soneto angustiado de Gregório de Matos, cheio de amor e ódio pela Bahia, num dilema entre as vaidades do mundo e as aspirações do Eterno. Um típico banzo do sagrado, lamentando a nossa humilde existência que evapora em 70 ou 80 anos no vazio da eternidade. E fica bonito, fica austero. Fica quase perfeito. Ninguém mais consegue imaginar nenhum elemento que pudesse tonar a coisa toda ainda mais dramática. Mas aí alguém sugere: e se a gente chamar a Maria Bethânia pra cantar isso?

Mortal Loucura – Maria Bethânia

A sugestão é aceita. Depois de selecionar tudo o que existe de trágico e pungente na Bahia, eles editam e está oficialmente criado o hino mais triste da Terra da Alegria. E decidem que vai tocar no rádio. Todos comemoram brindando com cafezinho e parabenizando uns aos outros. A reunião é dada por encerrada. Eles se despedem, satisfeitos. A sala fica vazia. E o estagiário apaga a luz.

– Como foi lá?
– Andar é cair para frente, diria Salopek.
– Mas como correu tudo?
– Sabe aquela história do Rubens Braga, do pavão? No final, ele descobre que aquelas cores todas não existem na pena do bicho. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas de água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. Todo pavão é um arco-íris de plumas, imagine só.
– Pavão?
– …
– Você quebrou a cara bonito, não foi?
– Foi.
– Imaginei…

Eu tento manter a dignidade no fundo do poço. Me deixem metaforizar as minhas derrotas, pelo amor de Deus.

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