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Charles

“A porta estava trancada

E o universo

Tocava a minha música.”

(Charles Bukowski / Hino da Tormenta)

Coitados

A Promessa

Alguns filmes têm a fotografia tão bonita que dão vontade de assistir sem legenda.

(A Promessa / Terry George, 2017)

Um encontro marcado para hoje mesmo dificilmente será produtivo. Melhor deixar para amanhã. A antecedência de uma semana é o ideal. Acredito que um pouco de inacessibilidade é necessária para peneirar a qualidade dos encontros – discerne o interlocutor que deseja conversar com alguém e o interlocutor que deseja conversar com você.

Talvez seja esse o último degrau para a idade adulta: evitar uma vida rodeada de figurantes. Você se economiza numa mesquinhez discreta, ponderada. Não confundir com se colocar numa ilha deserta: ocasionalmente, é importante ter com quem comentar as notícias do jornal, ouvir uma piada, aceitar sugestões sobre um novo modo de picar cebolas. Você até comparece às festas, cumprimenta a todos, mas escolhe uma mesa na varanda. Longe da pista, longe da confusão, do som alto. Longe da festa. Você prefere uma operadora de celular pouco conhecida, decide morar num bairro difícil e a sua casa não tem wi-fi. Mas a porta segue aberta.

Não digo que a pessoa se ponha num pedestal – pode dar a impressão errada e talvez você não valha o esforço da subida. Mas acredito que seja esse o preço por um passado de extrema sociabilidade – certa impaciência para diferenciar amigos, conhecidos e o resto da raça humana. É muita gente e você nunca sabe quem veio para ficar. Na dúvida, aceite todos os convites. Jamais seja evasivo, sugira local e data. Deixe o outro decidir se ele quer mesmo que aconteça. Esteja sempre disponível – pra daqui a uma semana.

Ultimatum

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“Eu, da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um novo mundo.”

(Álvaro de Campos / Ultimatum, 1917)

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“Meu pai não aprova o que eu faço, tão pouco eu aprovo o filho que ele fez.”

“Nenhum supermercado satisfaz meu coração”

“A gente se olha, se toca e se cala e se desentende no instante em que fala.”

“Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida. Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais.”

“Cai o Muro de Berlim – cai sobre ti, sobre mim, a nova ordem mundial.”

“Não quero amar, não, nunca mais. Que esse negócio de amor já não se faz sem punhais.”

“No escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor.”

“Meu coração, cuidado, é frágil. Meu coração é como um vidro, como um beijo de novela.”

“Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo, isso é somente uma canção. A vida, a vida realmente é diferente. Quer dizer, ao vivo é muito pior.”

“Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava, de olhos abertos lhe direi: amigo, eu me desesperava.”

“Completamente sem metas, sentado: não tenho sido.”

“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro, ano passado eu morri mas esse ano eu não morro.”

“Tudo muda. E com toda razão.”

Medianeiras

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“Esses edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica demonstram total falta de planejamento. Exatamente assim é a nossa vida que construímos sem saber como queremos que fique. Vivemos como quem está de passagem por Buenos Aires. Somos os criadores da cultura do inquilino.”

“Todos os edifícios, absolutamente todos, têm um lado inútil, inservível, que não tem vista para lugar nenhum, a medianeira. Onde, às vezes, surgem soluções clandestinas, já que qualquer salvação é sempre clandestina: alguém fura e faz uma janela.”

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“Que me perdoem os clássicos, mas esse é o livro da minha vida. É a origem da minha fobia de multidões e criou em mim uma angústia existencial particular. Ele representa, de um jeito dramático, a angústia de saber que sou alguém perdido entre milhões.”

“Concluí que esses encontros são como combos do McDonald´s. Nas fotos tudo é melhor, maior e mais apetitoso. Cada vez que vou a um encontro sofro a mesma decepção que frente a um Big Mac.”

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“Há dez anos eu sentei na frente de um computador e tenho a impressão de que nunca mais levantei.”

“Tem coisa mais triste, no século XXI, do que não receber e-mails?”

“Gosto de pensar nas vitrines como um lugar perdido entre o que há do lado de dentro e o que há do lado de fora.”

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(Gustavo Taretto / Medianeiras)

 

 

 

 

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