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Archive for the ‘books on the table (literatura)’ Category

“Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.”

(Fernando Pessoa / Poemas Inconjuntos, 1946)

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Mais trechos do livro aqui.

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“[O húngaro], único idioma do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita.” (Pág. 03)

“Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.” (Pág. 03)

“Budapeste, cortada por um rio. O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela.” (Pág. 04)

“Um prazer nervoso, um tipo de ciúme ao contrário. Porque para mim, não era o sujeito que se apossava da minha escrita, era como se eu escrevesse no caderno dele.” (Pág.08)

“Mas duas pessoas não se equilibram muito tempo lado a lado, cada qual com seu silêncio; um dos silêncios acaba sugando o outro, e foi quando me voltei para ela, que de mim não se apercebia. Segui observando seu silêncio, decerto mais profundo que o meu, e de algum modo mais silencioso. E assim permanecemos outra meia hora, ela dentro de si e eu imerso no silêncio dela, tentando ler seus pensamentos depressa, antes que virassem palavras.” (Pág. 30)

“Aí me veio o capricho de deixar uma mensagem depois do sinal, porque havia três meses, ou quatro ou mais, que eu tampouco falava a minha língua: oi, é o José. Havia um eco na ligação, é o José, dando-me a impressão de que as palavras estavam desgarradas da minha boca, Vanda, Vanda, Vanda, Vanda. E comecei a abusar daquilo e falei Pão de Açúcar, falei marimbondo, bagunça, adstringência, Guanabara, falei palavras ao acaso, somente para ouvi-las de volta.” (Pág. 34)

“Porém algum instinto sempre nos continha quando se chegava perto de um humilhar o outro, ou de se abrir demais o peito. Com um mínimo de pudor, mais um tanto de ódio preservado, nossa amizade se consolidou; à diferença do amor, que extravasa a toda hora, a amizade precisa ter seus diques.” (Pág. 43)

“Houve um tempo em que, se tivesse de optar entre duas cegueiras, escolheria ser cego ao esplendor do mar, às montanhas, ao pôr-do-sol do Rio de Janeiro, para ter olhos para ler o que há de belo, em letras negras sobre fundo branco” (Pág. 76)

(Chico Buarque / Budapeste, 2003)

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“Não a posso deixar aqui sozinha. Não estaria sozinha. Estaria sozinha de mim, que é a solidão que me interessa e a de que tenho medo.” (pág. 29)

“Estaria numa aniquilação imediata também, poupando-me a miséria de ver o sol que arde sem respeito por qualquer tragédia.” (pág. 36)

“Gosto desta maldade, não podemos ficar velhos e vulneráveis a todas as coisas, temos que nos rebelar aqui e acolá, caramba, temos que estar a postos para alguma retaliação, algum combate, não vá o mundo pensar que não precisa tomar cuidado com as nossas dores.” (pág. 87)

“É um sentimento que fica escondido, à boca fechada, por quê sabemos que talvez não devesse existir, mas existe por quê o passado, neste sentido, é mais forte do que nós. Quem fomos há sempre de estar contido em quem somos, por mais que mudemos ou aprendamos coisas novas.” (pág. 130)

“Eu, de fato, ainda adoro a Amália e ouço-a quase a chorar se for preciso e se tivesse que escolher um único português para entrar no paraíso, talvez quisesse que fosse ela, para eternizar de verdade aquela voz, a maior voz da desgraça e do engano dos portugueses. Pena não haver paraíso, já não haver Amália e ter havido e sobrar tanta desgraça e engano.” (pág. 147)

“Somos um país de cidadãos não praticantes. Somos um país de gente que se abstém.” (pág. 167)

“Havia uma morte para cada um. Alinhada como em fileiras do exército, aprumada em grande brio para vir colher quem lhe competia no momento certo. A morte era, afinal, a mais organizada das instituições. Cheia de afazeres e detalhes, mas muito competente e certeira.” (pág. 190)

“Deus é uma cobiça que temos dentro de nós. É um modo de querermos tudo, de não nos bastarmos com o que é garantido e já tão abundante. Deus é a inveja pelo que imaginamos. Como se não fosse suficiente tanto quanto se nos põe diante durante a vida. Queremos mais, queremos sempre mais, até o que não existe nem vai existir.” (pág. 203)

“Sabes que os peixes têm uma memória de segundos. Aqueles peixes bonitos que vês dentro dos aquários pequenos, sabes que têm uma memória de segundos, três segundos, assim. É por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, por quê a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. Deveríamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, por quê a mais ridícula coisa na primeira viagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo.” (pág. 247)

(Valter Hugo Mãe / A Máquina de Fazer Espanhóis, 2010)

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“No momento em que um homem parte para uma viagem ou se prepara para mudar de vida, são muitos os pensamentos que o assaltam, desde que seja pessoa capaz de reflexão. Todo o passado lhe ocorre e faz projetos sobre o futuro.” (Pág. 121)

“Enquanto não gostamos de alguém, é como se estivéssemos a dormir. Não somos mais que pó. Mas assim que um homem começa a amar, é como se fosse Deus, sente-se puro como nos primeiros dias da criação.”  (Pág. 154)

“Não pensava em fazer mal às pessoas para daí obter êxito. Era apenas um homem de sociedade, bem-sucedido, que se acostumara a ter êxitos.”  (Pág. 243)

“Encontrará em minha casa a bela Helena, a quem nunca cansamos de olhar.” (Pág. 247)

“E, desde de que fizera esta descoberta, já não lhe era possível ver mais nada, pela mesma razão que já não somos capazes de aceitar um erro uma vez que o conheçamos.” (Pág. 249)

“Ainda és tão novo. Ainda precisa de conselhos. Não me leve a mal por eu usar dos meus direitos de velha.” (pág. 250)

“E, apesar de tudo, só uma coisa me interessa, só uma coisa me absorve: o desejo de triunfar sobre todos. Só me interessa esta força misteriosa, esta glória que eu sinto pairar aqui por cima de mim, no meio desta neblina!” (Pág. 323)

(Leon Tolstói / Guerra e Paz – Volume 1)

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“A porta estava trancada

E o universo

Tocava a minha música.”

(Charles Bukowski / Hino da Tormenta)

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barcos na tempestade

 

“Eu, da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um novo mundo.”

(Álvaro de Campos / Ultimatum, 1917)

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