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Archive for the ‘books on the table (literatura)’ Category

“Para se prevenir das sereias, Ulisses tampa as orelhas com cera e se faz prender no mastro (…) Ele confia totalmente no punhado de cera, nas cordas que o prendiam e no prazer inocente de confrontar as sereias, que possuem uma arma ainda mais poderosa que o seu canto, que é o seu silêncio. Pode-se conceber, embora tal não aconteça, que alguém possa escapar da sua música, mas certamente não de seu silêncio. (…)

E, de fato, quando Ulisses chega, as poderosas sereias param de cantar, seja porque julgavam que só com o silêncio poderiam conseguir alguma coisa deste adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses – que não pensava em outra coisa a não ser cera e correntes – as fez esquecer de todo e qualquer canto.

Ulisses, contudo – se é que pode se dizer assim – não escutou o seu silêncio, mas acreditou que elas cantavam e que tão somente ele estava protegido do perigo de escutá-las. Por um momento, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semi-abertas, porém achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis ao seu redor. Logo, no entanto, tudo deslizou do seu olhar dirigido ao além. As sereias literalmente desapareceram diante de sua determinação e, enquanto ele estava no ponto mais próximo delas, já não as considerava.

Mas elas – mais belas do que nunca – esticaram seus corpos e se contorceram, deixando seu cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam suas garras dos rochedos. Já não queriam mais seduzir. Desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses. (…)

Só Ulisses escapou delas.”

(Franz Kafka, O Silêncio das Sereias, 1988, p. 542-543)

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“Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.”

(Bertolt Brecht / Perguntas de um trabalhador que lê)

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“Que século, meu Deus! Diziam os ratos.
E começavam a roer o edifício.”
(Carlos Drummond de Andrade / Edifício Esplendor)

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“Brasília é construída na linha do horizonte. – Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar, e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília. – Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas te digo que Brasília é a imagem de minha insônia, vêem nisso uma acusação; mas a minha insônia não é bonita nem feia – minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério. – Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. – Lucio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu. – Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece na crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, a criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília fica à beira. – Se eu morasse aqui, deixaria meus cabelos crescerem até o chão. – Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais. Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. (…) Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo meu Deus? – Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar. – Mamãe, está bonito ver você de pé com esse capote branco voando (É que morri, meu filho). – Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria pra onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. (…) Se tirassem meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. – Cadê as girafas de Brasília? – Certa crispação minha, certos silêncios, fazem meu filho dizer: puxa vida, os adultos são de morte. – É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, uma outra coisa vai habitá-la. E se acontecer, será tarde demais: não haverá lugar para pessoas. (…) Se há algum crime que a humanidade ainda não cometeu, esse crime novo será aqui inaugurado. E tão pouco secreto, tão bem adequado ao planalto, que ninguém jamais saberá.(…) Esta cidade foi conseguida pela prece. Dois homens beatificados pela solidão me criaram aqui de pé, inquieta, sozinha, a esse vento – Fazem tanta falta cavalos brancos soltos em Brasília. De noite eles seriam verdes ao luar. – Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que também é a idéia que faço da eternidade. Os dois criaram o retrato de uma cidade eterna.”

(Clarice Lispector / A Legião Estrangeira, 1964, p. 162-167)

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“Por que se importar é
da minha natureza.
Nunca deixei de me importar,
mesmo quando até parecia que não.
E me importarei sempre,
até o fim da vida
(e mesmo depois, se houver mesmo
esse adicional que tantos reivindicam).”

(Ruy Espinheira Filho / Babilônia e Outros Poemas)

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