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Archive for the ‘books on the table (literatura)’ Category

“- Posso fazer-lhe uma pergunta íntima?

– Depende – responde o português.

– O senhor já alguma vez desmaiou, Doutor?

– Sim.

– Eu gostava muito de desmaiar. Não queria morrer sem desmaiar.

O desmaio é uma morte preguiçosa, um falecimento de duração temporária. O português, que era um guarda-fronteira da vida, que facilitasse uma escapadela dessas, uma breve perda dos sentidos.

– Me receite um remédio para eu desmaiar.

O português rir-se. Também a ele apetecia uma intermitente ilucidez, uma pausa na obrigação de existir.

– Uma marretada na cabeça é a única coisa que me ocorre.

Riem-se. Rir juntos é melhor do que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.”

(Mia Couto / Venenos de Deus, Remédios do Diabo)

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“A nossa pequena história nada pode dizer aos outros e não ser grande contribuição para a história do destino comum. Mas é a nossa vida. Pedaços da nossa alegria, momentos de desespero, amores, desilusões. Por isso escrevemos poemas, fazemos greves, vamos ao futebol e ao teatro. Alguns têm a rara felicidade de participar em revoluções e sentir aí que o destino é domável. O que procuramos, nós, os seres comuns, não é a grande história, é antes não deixar morrer este anseio libertador. E participamos em novas aventuras, mesmo que seja só passear nas montanhas com os netos. O que nos motiva, no fundo, é saber que alguém precisa de nós.”

(Manuel Monteiro / A Imensa Solidão do Proletariado)

Esse é um trecho de um romance que ainda vai ser publicado. Entrevistei Manuel para um jornal em 2009, comentei aqui na época. Então, depois de ler Cabeça de Calcário – um conto brasileiro sobre a passagem do tempo – inventei Baltazar, um personagem inspirado em Manoel, sua rotina de alfarrabista e duas ou três conversas que tivemos sobre o destino da Europa.

Gosto do Manuel pelo entendimento histórico e fatalista que ele tem sobre a própria vida. Ele tinha um blog e deixou de atualizar em 2011 – sim, eu sou a única pessoa do Atlântico que ainda atualiza um blog. Mas tenho notícias sempre. Sei que ele está preocupado com as ex-colônias, com o mundo. Às vezes, penso em contar sobre a existência de Baltazar e outros textos – ele só leu a matéria do jornal, não sabe do resto. Talvez não precise saber. Achei que soaria assustador ele descobrir que existe alguém que o observa há anos, intercala encontros casuais e escreve sobre a sua vida.

psicopata

Soube que ele estava escrevendo esse livro, quem sabe seja uma autobiografia, achei que seria útil enviar contribuições, sei lá. Talvez ele achasse isso meio pretensioso. Ou apenas psicopata mesmo.

Às vezes, tenho vontade de abrir o jogo e mostrar às pessoas o material que tenho sobre elas. Por hora, vamos seguir no anonimato para evitar a fadiga e a camisa de força. Não quero ninguém atravessando a calçada com medo de mim.

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“O imaginário é algo como o estado de espírito de um grupo, de um país, de um Estado-nação, de uma comunidade, é o cimento social.” (pág. 65)

“Um dedo é apenas um dedo integrado a uma mão, e essa mão a um braço, e esse braço a um corpo. Mas, no momento em que se coloca no dedo um anel que marcará o status matrimonial de uma pessoa, esse dedo muda de posição. Continua a ser um dedo, mas é ao mesmo tempo muito mais que isso.” (Roberto da Matta) (pág. 69)

“O ritual está sempre dizendo alguma coisa sobre algo que não é o próprio ritual” (Hermano Vianna) (pág. 70)

“Existe uma frase, do poeta russo Vladimir Maiakovski, que abre um caminho interessante nas discussões sobre imaginário e turismo: “dizem que, em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Embora provavelmente não tenha sido escrita com intuitos turísticos, a reflexão do poeta, falecido em 1930, demonstra a relação entre o aqui e o lá, quando depositamos todas as nossas esperanças no que está afastado de nós: a felicidade, nunca presente, mas sempre adiada no depois e no distante.” (pág. 81)

“Todo destino turístico é construído a partir de um imaginário coletivo. A força de atração, como o próprio nome atrativo turístico sugere, não está no elemento em si, não lhe é inerente, mas se encontra nas imediações, ou seja, no discurso que desenvolvemos para nos ligarmos a ele.” (pág. 84)

“Na relação entre turismo e imaginário, há a consagração daquilo que está longe de nós, uma distância exótica que pode ser temporal, espacial ou a compreensão simbólica do outro.” (pág. 84)

“O conceito de diáspora oferece uma crítica dos discursos de origens fixas, ao mesmo tempo em que leva em conta um desejo pelo lar, que não é a mesma coisa que o desejo pela terra natal.” (Avtar Brah) (pág. 125)

“Uma identificação que se pode chamar de topofilia é o elo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico. Na fenomenologia da imaginação, topofilia designa o exame de imagens do espaço feliz.” (pág. 148)

(Nara Maria Carlos de Santana / Turismo entre Diálogos)

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“Para se prevenir das sereias, Ulisses tampa as orelhas com cera e se faz prender no mastro (…) Ele confia totalmente no punhado de cera, nas cordas que o prendiam e no prazer inocente de confrontar as sereias, que possuem uma arma ainda mais poderosa que o seu canto, que é o seu silêncio. Pode-se conceber, embora tal não aconteça, que alguém possa escapar da sua música, mas certamente não de seu silêncio. (…)

E, de fato, quando Ulisses chega, as poderosas sereias param de cantar, seja porque julgavam que só com o silêncio poderiam conseguir alguma coisa deste adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses – que não pensava em outra coisa a não ser cera e correntes – as fez esquecer de todo e qualquer canto.

Ulisses, contudo – se é que pode se dizer assim – não escutou o seu silêncio, mas acreditou que elas cantavam e que tão somente ele estava protegido do perigo de escutá-las. Por um momento, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semi-abertas, porém achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis ao seu redor. Logo, no entanto, tudo deslizou do seu olhar dirigido ao além. As sereias literalmente desapareceram diante de sua determinação e, enquanto ele estava no ponto mais próximo delas, já não as considerava.

Mas elas – mais belas do que nunca – esticaram seus corpos e se contorceram, deixando seu cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam suas garras dos rochedos. Já não queriam mais seduzir. Desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses. (…)

Só Ulisses escapou delas.”

(Franz Kafka, O Silêncio das Sereias, 1988, p. 542-543)

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“Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.”

(Bertolt Brecht / Perguntas de um trabalhador que lê)

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