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Dia santo

(19 de abril de 2019)

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“Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara
As crianças olhavam para o céu: não era proibido
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos
Não havia perigo
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo.
Mas passeava no jardim, pela manhã!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo.”

(Carlos Drummond de Andrade / Lembranças do Mundo Antigo, in: Sentimento do Mundo)

Vocês já devem ter notado, mas estamos tendo um problema de frequência por aqui. Seria educado dizer que estou sem tempo ou sem assunto, mas não seria verdade.

Atualizo dois perfis no instagram, dois no facebook, twitter, youtube, linkedin, pinterest, anywhere, só que, na maioria deles, eu preciso bancar a boa moça porque, veja só, os perfis levam o meu nome e sobrenome. Não sei de que pântano lodoso eu tirei essa ideia. Observe que até este blog leva o meu nome e sobrenome – a caipora em pessoa deve ter me dado essa sugestão em 2005. Pois é, mas eu não queria ter que ficar fazendo a Sandy por aqui também. Às vezes, penso em transferir este conteúdo para um domínio desconhecido só para evitar a fadiga, especialmente depois desta temporada de intempéries – práticas, sociais, policiais – pois me dá aflição pensar que tudo o que eu disser pode ser usado contra mim num tribunal. Metafórico ou não. Especialmente os metafóricos.

Na época de Geisel, os jornais publicavam receitas de bolo no lugar das matérias que eram censuradas. Geisel já morreu e eu não entendo muito sobre bolos, mas ando lendo coisas bonitas que ainda posso compartilhar por aqui sem maiores consequências. Fotos. Resenhas. Textos meus antigos. Piadas que vão fazer sentido para duas ou três pessoas no mundo e pode ser que você seja uma delas.

Patinando em gelo fino, seguiremos mais sem linha editorial do que nunca. Prometo não incorrer no script da mamãe blogueira ou blogueira das dicas – eu me sentiria promovendo algum tipo de serviço de utilidade pública e qualquer vocação para ser útil e prestativa apenas não. me. apetece.

E obrigada pelas mensagens. Devo dizer que, no meu feed, também aparecem as postagens dos blogs de vocês. As do ano passado foram ontológicas. Adorei assistir ao fim do mundo daqui do wordpress.

O estabelecimento agradece a preferência. Não sei como terminar este post, obrigada a todos, é isso, voltem sempre.

Ítaca

“Se partires, um dia, rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles, no teu caminho, jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.

Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho, enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.”

(Constantino Kavafis / O Quarteto de Alexandria)

“Para se prevenir das sereias, Ulisses tampa as orelhas com cera e se faz prender no mastro (…) Ele confia totalmente no punhado de cera, nas cordas que o prendiam e no prazer inocente de confrontar as sereias, que possuem uma arma ainda mais poderosa que o seu canto, que é o seu silêncio. Pode-se conceber, embora tal não aconteça, que alguém possa escapar da sua música, mas certamente não de seu silêncio. (…)

E, de fato, quando Ulisses chega, as poderosas sereias param de cantar, seja porque julgavam que só com o silêncio poderiam conseguir alguma coisa deste adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses – que não pensava em outra coisa a não ser cera e correntes – as fez esquecer de todo e qualquer canto.

Ulisses, contudo – se é que pode se dizer assim – não escutou o seu silêncio, mas acreditou que elas cantavam e que tão somente ele estava protegido do perigo de escutá-las. Por um momento, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semi-abertas, porém achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis ao seu redor. Logo, no entanto, tudo deslizou do seu olhar dirigido ao além. As sereias literalmente desapareceram diante de sua determinação e, enquanto ele estava no ponto mais próximo delas, já não as considerava.

Mas elas – mais belas do que nunca – esticaram seus corpos e se contorceram, deixando seu cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam suas garras dos rochedos. Já não queriam mais seduzir. Desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses. (…)

Só Ulisses escapou delas.”

(Franz Kafka, O Silêncio das Sereias, 1988, p. 542-543)

Não te rendas

“Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento, ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por que eu te amo.”

(Trecho do poema Não Te Rendas, do uruguaio Mário Benedetti)

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