Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘figura de linguagem’

Figuras de linguagem são implacáveis. Eu tenho usado algumas terríveis. O vocabulário nos entrega quando estamos ficando velhos. 

Outro dia, falando sobre futebol, argumentei que inteligência espacial mesmo era encaixar a feira do mês inteira dentro da geladeira. Horror. Em outro, comentei o desalento nacional diante da escolha de novos líderes relacionando-o com aquelas prateleiras de folhas do supermercado – nabo, chicória, sálvia, endívia – também não entendo a diferença, pra mim é tudo mato. O fundo do poço mesmo foi ter feito uma analogia entre festas e a limpeza dos sanitários da minha residência. 

Festas. Limpeza. Sanitários. 

Foi terrível.

Falei que a minha vida social era tão confusa que, às vezes, parecia a saga dos quatro banheiros. Um fenômeno comum por aqui. Aonde cada um deles, independente dos esforços de manutenção, revezam-se numa ciranda interminável de demandas isoladas: quando o primeiro banheiro encontra-se limpo e perfumado, já é hora de repor o sabonete do segundo, recolher o lixo do terceiro, abastecer a pasta de dentes do quarto e voltar para trocar a lâmpada queimada do primeiro, trocar o circuito do chuveiro do segundo, desentupir o ralo do terceiro e substituir o basculante do quarto que foi atingido por um objeto arremessado de outro andar provando que nada é tão cansativo que não possa contar com acréscimo externo para piorar e, é claro, aproveitar a presença do vidraceiro – já que, para trocar aquela lâmpada na noite anterior, você precisou acender uma vela e o calor da chama trincou o espelho do primeiro banheiro e por isso mesmo… enfim. Ciclo perpétuo. Se alguém aqui levasse a casa a sério, já teria parado para estudar esse motocontínuo, essa Fênix, queria Nietzsche ilustrar o Eterno Retorno com a mesma didática daqueles banheiros.

517244

Às vezes, me dá saudade da casa da minha mãe. Onde as luzes simplesmente acendiam e as descargas miraculosamente funcionavam. Jovens, aprendam: envelhecer é descobrir que até dentro da geladeira tem lâmpada pra você trocar. Que, enquanto você estiver vivo, vai ter prato em cima da pia. Ontem, no meio de um diálogo, eu disse a meu amigo que ele estava muito sério: parece até que esqueceu um bolo no forno. Para outro, acrescentei que estava um dia lindo: um dia bom para o varal. Temo que este seja um caminho sem volta. Prevejo um futuro tenebroso com gírias fora de uso e piadas do pavê. Comigo argumentando que, no meu tempo, era tudo diferente. Usando metáforas que incluam dentaduras e fraldas geriátricas. Num papo cheio de nove horas. Do arco da velha. Do tempo do ronca. Chato pra dedéu. 

Anúncios

Read Full Post »

Eu tenho uma amiga enfermeira. Sempre nos encontramos – eu, ela e o resto da humanidade comentada. E já que somos figuras públicas facilmente identificáveis na multidão, ela costuma evitar a fadiga substituindo o nome dos nossos conhecidos por nomes de remédios ou doenças. (Maledicência é para iniciados, não tentem isso em casa!)

Amigo fake é “Minancora”, colega de trabalho inútil é “Chá de Boldo”, ex-namorado problemático é “Esquizofrenia Tripolar com Aterramento” e assim por diante. A garota é um primor na arte da figura de linguagem. Analogia pura. De emocionar qualquer literato.

– Sabe Limonada Bezerra?
– Sei.
– Chamou para o aniversário de Esquitossomose. Uma reuniãozinha com Buscopan, Cleptomania e Escabin na casa de Vick Vaporub.
– Você foi?
– Fui. Nem queria, mas fui. Lá estavam Diazepam, Xanax, Enfisema, Soro Caseiro e eu, coitada, a única não-fumante do recinto. Tava divertido, tava animado, tava insalubre. Sério. Me senti respirando com uns 30% da capacidade pulmonar, a caminho da fermentação. A qualquer momento ia começar a produzir meu próprio etanol. O que, convenhamos, seria merecidíssimo.
– E aí?
– Aí chegaram os visitantes insólitos. Primeiro chegou Gripe Suína, não entendi nada. Depois Placebo. E, pra finalizar, quando mais nada de estranho poderia acontecer, quem aparece? Quem? Quem??
– Quem???
– E-BO-LA!

Ontem, não nos encontramos pessoalmente e eu fui me atualizar da resenha do dia por telefone mesmo. Contrita, num banco de shopping, com a ligação péssima, fiquei tentando ouvir o relato do outro lado da linha e comentando:

– O que? Hum? Enfisema? Mentira. E Esquistossomose? Disse isso? Meu Deus do céu, o que você vai fazer? (pausa) Sei. Melhor mesmo. Mas que chato, né? Enfisema é terrível mesmo, nem consigo imaginar. (pausa) Transtorno Suicida também? Fala sério. Eu não acredito, não dá pra acreditar numa coisa dessas. (pausa) Ok, a gente se fala. Beijos.

Quando termino a ligação, se aproxima uma freirinha com olhos rasos d’água e segura minha mão:

– Oh, minha filha, tudo isso vai passar. Acredite em Deus e ore muito. Vou rezar por você e por toda a sua família. Fé em Deus, viu, querida?

E vai embora.

Sim. Minha vida é um roteiro de comédia barata. Baratíssima.

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: