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Posts Tagged ‘poesia’

“Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.”

(Fernando Pessoa / Poemas Inconjuntos, 1946)

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“A porta estava trancada

E o universo

Tocava a minha música.”

(Charles Bukowski / Hino da Tormenta)

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“O que você mais teme acaba acontecendo.
O que você mais quer acaba acontecendo.
O que ninguém espera acaba acontecendo.
O que ninguém consegue mais conter
acaba de acontecer.”

 

(Arnaldo Antunes / Agora aqui ninguém precisa de si)

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“Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas (…)
Não, não creio em mim
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! (…)
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta (…)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu (…)
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim, não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.”

.
(Fernando Pessoa / Tabacaria)

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“Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo, outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome.”

(Mia Couto / Raiz de Orvalho)

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No cruzamento da avenida de Berna
Na calçada onde a gente trabalhava
Quando chovia granizo e era preciso correr
Nos abrigávamos debaixo do viaduto
Fardados, batendo os dentes de frio
E falávamos sobre coisas distantes

Na cidade onde eu nasci
O rio cortava os campos de trigo
Na cidade onde eu nasci
Havia figos no alto da serra
Na cidade onde eu nasci
Eu tinha carro, emprego, amigos
Eu tinha uma mãe, eu tinha um amor
Eu tinha um cachorro e uma canoa
Na cidade que eu abandonei
Para estar aqui, debaixo do viaduto

Às vezes, alguém cantava uma canção de longe
Às vezes, alguém chorava de cabeça baixa
Falando de Delhi, Praia, Luanda
E aquele inverno parecia que não ia terminar nunca

(Existe qualquer coisa de cimento concreto
Cansaço, fuligem, betume
Que grifa a pele de quem já trabalhou pelas ruas)

Anos depois, cada um voltou
Para a sua cidade de berço
E houve fogos e choro e festa
E silêncio
Às vezes, chega carta de alguém

E eu sempre tenho o pressentimento
(Mentira, uma certeza severa)
Que nenhum de nós conseguiu
Voltar para o que deixou
Nem aos figos, ao trigo, ao campo
Nem aos braços do amor perdido
Nem à terra que foi prometida
No cruzamento da avenida de Berna

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